Inscreva-se no RSS. Ou não.
Siga este desfavor!
Desfavorite.
Desfavor!
Desfavor do dia:
22/11/2009
Desfavor da semana: Um exemplo para todos nós...



FONTE

No último domingo, foi sepultado Robert Enke, goleiro do Hannover 96 e da seleção alemã. O assunto não rendeu muito aqui no Brasil, mas foi motivo de comoção nacional em sua terra natal, a Alemanha. O que diferenciou a morte de Enke de tantas outras no mundo do futebol foi a forma: Suicídio.

O desfavor não pretende ser insensível com a tragédia alheia, pelo menos não mais depois que Sally leu o texto original de Somir e o chamou de monstro desalmado. Cá estamos com a nova versão do texto, mas ainda focando no desfavor do caso: O endeusamento do suicida. Alemães, brasileiros, americanos... O desfavor não tem nacionalidade.

Somir

Da última vez que focamos num acontecimento internacional que passou despercebido pela “grande massa” tupiniquim, fomos... quer dizer, fui tachado de chato pretensioso, eu considerei que era Enveja. Bom, cá estamos nós novamente num tema que “ninguém se importa”. Quer dizer, ninguém que não more na Alemanha.

O suicídio de Robert Enke rendeu uma comoção na terra da salsicha parecida com a morte da princesa Diana na terra da rainha. Parecida em termos, já que não foram só mulheres e gays que choraram. Os sisudos alemães gastaram sua cota milenar de lágrimas com a tragédia do goleiro de sua seleção.

Tragédia que pessoas mortas por dentro como eu enxergam de forma bem mais simples: Um homem se matou e deixou para trás mulher e filha adotiva pequena. Sim, havia um componente de depressão no caso, que aparentemente teria começado com a morte de sua filha (outra, a adotiva não é um zumbi...) alguns anos atrás.

A mulher de Enke , fodida e mal paga depois de perder uma filha e o marido, disse que ele se sentia muito pressionado com a responsabilidade de manter seu sucesso recente no futebol separado de sua depressão. O goleiro alemão fez um grande esforço para esconder seus problemas pessoais até não agüentar mais e se matar.

O que aconteceu, aconteceu. Não adianta dar bronca no defunto. Mas é importante que não se valorize o ato do suicídio a ponto de parecer que a pessoa foi corajosa e heróica após ter dado um sonoro foda-se para as pessoas que contavam com ele e ser suspenso de vez do jogo da vida. (Nem o STJD consegue reverter essa...)

Para ser honesto, o grande desfavor da história foi perceber que nem os alemães estão acima dessa bobagem de endeusar quem morre. E não é “pagação de pau” para os chucrutes, não. Os alemães tem em sua história recente nada mais nada menos do que Hitler e o nazismo. O líder nazista acabou derrotado, carregando milhões de soldados (que, adivinha só, eram apenas pobres cooptados a pegar em armas para se defender dos “inimigos malignos” que a máquina de propaganda nazista pintava) para a cova junto com ele.

Era de se esperar que mesmo com a reprovação mundial sobre o assunto, os alemães acabassem endeusando seus soldados que morreram defendendo a pátria. Só que hoje em dia é proibido até mostrar símbolos nazistas nas ruas de lá. Uma forma de dizer para o mundo: “Ei, estávamos errados, e por mais que muitos bons homens tenham morrido por uma causa que mal sabiam ser repulsiva, não vamos fazer mais alarde disso.”

Mas aparentemente isso não vale para homens que morrem defendendo sua própria causa, custe o que custar para os outros. O estádio do clube que defendia estava lotado para uma série de homenagens prestadas por virtualmente todas as pessoas com alguma importância esportiva no país.

As pessoas tem o direito de dizer seu adeus, as pessoas tem até o direito de demonstrar empatia para a família (ou o que restou dela) em luto. Não estou desvalorizando essa parte da história. O problema é quando começam a dizer que Enke foi um exemplo para todos nós. O problema é quando uma pessoa que escolheu se matar recebe tantas homenagens e acaba imortalizada na história por este ato.

Que mensagem está se passando? É aceitável jogar tudo para o alto quando a vida aperta e deixar todo mundo que depende de você na mão. Não é apenas questão de dinheiro, é questão de se fazer presente quando mais se precisa. Eu sempre considerei que a característica mais importante de um homem é a consistência. Estar inteiro e pronto para proteger quem precisa de você quando a coisa realmente fica difícil.

Só que essa discussão vai para o segundo plano quando se começa a dizer que a pressão sobre um jogador é enorme (é o caralho, ganhando o que eles ganham?) e que “futebol não é tudo”.

Vejam só que bonito: No final das contas Enke vai sair como VÍTIMA de uma sociedade maligna que exigia dele atuar bem em sua profissão. As pessoas não sabem o que fazer e difundem a culpa da forma mais abrangente possível. Foi mal, alemãozada, mas as vítimas da sociedade normalmente tem a pele mais morena... Uma pessoa perturbada é exatamente isso: Perturbada.

Eu não vou ser tão escroto a ponto de discutir a validade da depressão de uma pessoa, já que perder uma filha é algo absurdamente mais pesado do que qualquer problema que eu já tive. Muito menos quero discutir se é errado o suicídio em si. Cada um é dono do seu nariz.

Mas não é crueldade dizer que para quem ficou da família dele foi uma atitude egoísta e danosa. É a verdade. Só que uma pessoa morta fica “fora do limite” de qualquer crítica, e para lidar com isso acha-se tudo quanto é tipo de desculpa e compensação. E passa-se uma “bela” mensagem: É mais digno se matar do que se foder todo, mas estar do lado de quem precisa de você.

E isso passa longe de ser um problema alemão. A santidade pós-morte é um desfavor da humanidade.

Para me chamar de insensível, para me chamar de sensível, ou mesmo para perguntar quais as piadas de péssimo gosto que eu tive que cortar do texto original: somir@desfavor.com



Sally

O goleiro Robert Enke, da seleção da Alemanha, decidiu se matar. Ele achou que a melhor forma seria o atropelamento por um trem a 160km/h. Foi lá e se jogou debaixo do trem. Chato. Uma decisão um tanto quanto babaca para quem tem uma esposa e uma filha adotiva. Não, não foi acidente, a polícia achou um bilhete suicida e os amigos confirmaram que ele era bem capaz de fazer uma coisa assim.

Os médicos dizem que ele andava bem deprimido faz tempo, desde a morte de sua filha, Lara, em 2006. Ela morreu com dois anos de idade, vítima de um problema cardíaco. Ele vinha sendo tratado por um psiquiatra, mas aparentemente, não adiantou muito (seria o psiquiatra dele o Dr. Banana?). Recentemente passou um período doente, com uma infecção intestinal, sem poder jogar. Especula-se que isso teria desestruturado ainda mais a cabeça do moço.

Olha, a dor da perda de um filho é algo que eu não posso mensurar, por isso vou tentar não meter o pau nele. Não acho que o suicídio seja a melhor opção, até porque deixa ainda mais dor nas costas da esposa e da outra filha, mas pelo visto ele não conseguiu fazer diferente. Foi incorreto, mas vou tentar não esculhambar.

Posso compreender que uma pessoa não supere a perda de uma filha, sobretudo quando se trata de uma criança. O que não posso compreender é que as pessoas comecem a endeusar o comportamento suicida, sobretudo em um país desenvolvido onde a população tem instrução e condições mínimas para raciocinar.

Mas é exatamente isso o que está acontecendo. A Alemanha está fazendo um grande drama em cima do caso. Não se trata apenas de comoção, estão quase que valorizando o suicídio de Enke. Vamos combinar, optar pelo suicídio não é motivo para admiração. Não precisa ser tão coração de pedra como eu e achar que é uma saída covarde e egoísta, que fode com a vida de quem fica, mas também não precisa bater palmas e recompensar.

Eu costumo chamar isso de “Efeito Vargas”. Em algumas ocasiões, pessoas que se suicidam ganham a aura de heróis. Não entendo bem porque isso acontece. Pode ser que no momento a sociedade esteja carente de um herói ou um mártir por uma série de fatores. Pode ser em função do carisma da pessoa. Vai saber. É o que está acontecendo no caso de Enke.

Quando você ouve um torcedor dizer, aos prantos “Minha vida acabou” porque morreu o goleiro de sua seleção, percebe que algum fenômeno social muito do bizarro está acontecendo. Será que é falta de problemas na vida? Pode ser, né? Lá todo mundo come, todo mundo tem escola, todo mundo tem assistência médica. Deve ser bom viver na Alemanha, onde o maior drama é a morte de um goleiro.

Tudo bem, vamos aceitar que ele estivesse sendo consumido pela dor da perda da filha. Vamos aceitar que a dor era tanta que ele não encontrou outra opção que não se matar para fazer a dor parar. Ainda assim, uma pergunta: ao que tudo indica, este rapaz já estava no fundo do poço faz um tempo. Os amigos confirmam. Porque merda foi adotar uma criança se não tinha estrutura nem para cuidar dele mesmo? A menina foi adotada em maio deste ano. Criança não é um brinquedo para tentar “animar” um adulto deprimido.

Ah, desculpa, ele morreu, né? Não pode mais falar mal dele, se não fica todo mundo contra. Ok. Será que as pessoas não percebem que blindando o some do suicida acabam incentivando outras pessoas a se suicidarem? Enquanto o povo continuar perdoando, endeusando e achando que se lava a honra com sangue, o suicídio vai continuar sendo uma opção menos condenável.

Cada um tem a reação que pode a grandes perdas. Apesar de achar Enke covarde, o grande desfavor da semana não é ele.Evidentemente o rapaz não tinha muita condição de pensar e escolher. Mas o povo alemão tem. E está fazendo um circo de um episódio que merecia apenas um “Coitado do cara, tava perturbado”.

Muitos dizem que ele se matou pelo medo de fracassar no futebol. Alguns dizem que ele nunca superou a morte da sua filha. Como achar é de graça, eu tenho uma teoria: ele foi goleiro do Benfica, aquele time da África do Norte, sabe? Pois é. Não vou me aprofundar na teoria para não ofender ninguém, mas posso garantir que passar muitas semanas em Portugal pode sim despertar um desejo enorme de se suicidar. Aconteceu comigo.

Para me dizer que ele não é o Pilha nem nada para merecer esse destaque todo, para me dizer que está de luto porque sempre que morre um homem bonito e hetero você fica triste ou para falar mal de Portugal em off: sally@desfavor.com

Marcadores:

Desfavor
fez este desfavor de postagem.
(6)
desfavores dos leitores.
Twitter Orkut Facebook E-mail
não vai prestar.
Início
COMENTÁRIOS
Anonymous Anônimo fez este desfavor de comentário: 
O suicídio desse goleiro fez lembrar o caso de France Telecom, em que cerca de 30 funcionários se mataram, alguns deles alegando que o suicídio havia sido motivado pelas 'difíceis condições de trabalho'. O bode expiatório da midia: o presidente da companhia, é claro, que estava reestruturando a empresa para privatização.

França, difíceis condições de trabalho? Estive lá e ouvi diversos relatos contrários...Mandem conhecer o ambiente competitivo de nossas empresas e a batalha de nossos empreendedores. Daqui a pouco, se não já, brasileiro trabalha mais do que japonês, conclusão essa com conhecimento de causa...

Suellen
Anonymous Anônimo fez este desfavor de comentário: 
Vargas não foi suicídio. Taxar suicida de covarde é balela. Dizer que é depressão também é balela. Eu não descarto me matar se cansar da vida e não sou depressiva. O escritor Alfredo Bernacchi também perdeu um filho e em vez de se matar, levantou a cabeça e mudou o rumo da vida sendo ateu. Só a pessoa sabe quando não dá mais pra continuar e cada um encara dum jeito. Não acho que eles tão endeusando o suicida, deve ser pena mesmo do cara e da família dele. Minha família é de lá e por incrível que pareça a gente também tem sentimento.
Anonymous Anônimo fez este desfavor de comentário: 
O Pilha tá sempre se matando sem motivo. Pena que o Pilha não é bonito e tenho dúvidas se ele é hetero :p
Blogger Anônimo fez este desfavor de comentário: 
Nem conhecia o cara, mas só de saber que ele viveu em PT durante um tempo tb aposto minhas fichas que essa foi a causa. **veneno**
Anonymous Deja fez este desfavor de comentário: 
Uma pessoa doente, acometida por algum transtorno ou distúrbio, não lida como uma pessoa dita "normal" lidaria, nem mesmo em situações que podemos chamar de "banais", em casos mais graves então...

Não é motivo para endeusamento, mas para um lamento... Acho que por ser uma figura pública e, o desencadeamento da depressão ter sido a morte de sua filha, isso gerou uma comoção no povo... se é um Zé Ninguém, quem vai ligar?
Anonymous Anônimo fez este desfavor de comentário: 
vai tc
PESQUISA: