
Hoje a idéia não é falar sobre honestidade ou integridade. As promessas as quais o título da coluna de hoje se referem são aquelas que visam conquistar algum resultado positivo por intermédio de sacrifício pessoal não relacionado ao assunto em questão.
Se a explicação pareceu confusa, imagine uma pessoa subindo a escadaria de uma igreja católica de joelhos para agradecer pela graça concedida. Tendo fundo religioso ou não, Sally e Somir discordam sobre a utilidade dessas promessas para a vida das pessoas.
Tema de hoje: Promessas funcionam?
Não. Nunca. Várias coisas funcionam nessa vida: Dedicação, esforço, estudo, coragem... Mas promessas não. Se você que está lendo acha que eu não estou falando nenhuma novidade, deve ser blindado contra misticismos assim como eu. Mas se você que está lendo discorda ou não se acha
“gabaritado” para concordar ou discordar com uma afirmação como essa, vou tentar mostrar agora porque não é prepotência dizer que nenhuma promessa funciona, funcionou ou funcionará no universo.
Em primeiro lugar, não existe um deus ou algo parecido. Sério, é terrivelmente óbvio que não exista um. Não houve nenhuma intervenção de uma
“inteligência superior” na história da humanidade que possa ser provada. Boa parte da população mundial fundamenta suas crenças religiosas em compilações de lendas e mitos antigos que caem em duas categorias distintas:
- Acontecimentos explicáveis e reprodutíveis pela ciência moderna, sucessivamente elucidados de acordo com a evolução do conhecimento humano;
- Acontecimentos fantasiosos que poderiam ser contestados até por uma criança.
Não é meu objetivo ir até o fundo desse tipo de argumentação neste texto. A idéia básica aqui é que se você acredita em mágica
(ou seja, é religioso) nem adianta continuar lendo este texto. Não adianta explicar as cores para alguém que nunca abriu os olhos.
Os religiosos que apóiem Sally hoje.
Continua lendo? Ok. Vamos à parte das probabilidades. Mesmo uma pessoa que já tenha se livrado dos grilhões do misticismo ainda fica impressionada com algumas improbabilidades da vida. Uma pessoa que faz uma promessa e consegue algo dificílimo que desejava, por exemplo. Faz parecer que a promessa em si teve alguma influência no resultado. É só uma ilusão.
Imaginemos três pessoas num quarto de hospital. Um rapaz de 20 anos acometido de uma virose, um senhor de 86 anos de idade com câncer no pâncreas e uma mulher de 25 anos de idade cuja perna esquerda acabara de ser amputada.
Imaginemos então que essas três pessoas sejam incluídas nas promessas de seus parentes. Todos muito religiosos, todos cidadãos exemplares.
A avó do rapaz de 20 anos pede pelo fim da virose. A neta do senhor de 86 anos pede pela cura do câncer. O marido da mulher de 25 anos pede pela restauração da perna amputada.
Adivinha quem não tem a MENOR chance de conseguir algum resultado com sua promessa? A avó do rapaz de 20 anos tem uma possibilidade altíssima de conseguir resultados. A neta do senhor de 86 vai depender da chance de 5% de sobrevivência da doença em questão. O marido da mulher de 25 está pedindo por uma impossibilidade. Pernas não nascem de novo. Nenhum ser humano conseguiu isso até hoje porque não está no nosso código genético.
Se promessas respeitam as possibilidades reais
(e científicas) de sucesso, de onde se tirou a idéia de que elas fariam alguma diferença?
Percepção relativa. Promessas valem quando funcionam. Quando não alcançam seu resultado, deixam de ser contabilizadas. Quem pede impossibilidades nunca é atendido.
“Peraí, dá no mesmo fazer a promessa e não fazer a promessa?”Para o resultado, sim. Você não vai alterar o funcionamento do universo com
“pensamento positivo”. Não funcionou para ninguém até hoje. O que se pode fazer é mudar o PRÓPRIO funcionamento a partir de uma promessa. O famoso efeito placebo. De tanto acreditar numa coisa, seu corpo começa a reagir como se aquilo fosse real. Percepção relativa, novamente.
Mas aí, caros leitores, não é promessa. É dedicação, esforço, estudo, coragem... E isso funciona sim. Funciona independentemente de promessas, quanta gente já não conseguiu o que queria por esses mecanismos? É formula comprovada para aumentar suas chances de sucesso.
Mas sobre algumas coisas não temos controle. Isso é parte integrante da vida e nenhuma promessa pode mudar esse fato. Saboreie as vitórias contra as probabilidades, valorize o esforço e a coragem de quem lutou contra o que parecia invencível... Condicionar o sucesso de alguma coisa à mágica é menosprezar o processo.
Quanto mais as pessoas jogam o seu imenso potencial para
“os céus”, menos aprendem sobre sua capacidade de mudar o mundo. Uma promessa que dá errado
(probabilidades) pode minar o efeito placebo. Ganhar força na vida por intermédio de promessas ou compromissos alheios ao resultado que se deseja é como construir um castelo de cartas. Sendo que o material para uma construção sólida sempre esteve ao seu dispor.
Para dizer que fez uma promessa para eu nunca mais escrever, para dizer que eu sou um cético chato ou mesmo para dizer que também não acredita em mágica: somir@desfavor.com

Promessas funcionam 100% das vezes de forma infalível? Não.
Promessas PODEM VIR A FUNCIONAR, dependendo do contexto? Sim.
Eu faço promessas. Quem tem intimidade comigo sabe que estou completando um ano sem comer chocolate por uma promessa que fiz – e consegui o que queria. O que não quer dizer que você seja obrigado a acreditar que a promessa funciona em função de uma contraprestação de Deus
(acho até que se Ele existe, não deve ficar barganhando por aí). Nem sempre a promessa funciona em função de algo sobrenatural ou de qualquer outra causa não explicada.
A promessa pode funcionar porque te sugestiona ou porque te faz evocar forças que estão dentro de você. Nada melhor do que acreditar. Pesquisas científicas comprovam: fé PODE curar em determinadas situações. Sim, a fé pode resultar em reações físicas, químicas e psicológicas impactantes que não sabemos explicar, mas que trazem conseqüências benéficas.
Usamos uma porcentagem pequena do nosso cérebro. Com certeza temos potencial para muitas coisas das quais nem desconfiamos. Mas a Madame aí de cima se sente no direito de achar que conhece tudo, que já catalogou tudo e que não existe nada no mundo que fuja à noção de racionalidade.
“Se eu não sei explicar, não existe, é fantasia da cabeça dos outros e vou desmerecer”.
Ora, quem me garante que uma parte do meu cérebro que eu não entendo e não sei comandar com racionalidade não atue de alguma forma, direta ou indireta, beneficiando-se com uma promessa?
Tem um caso clínico famoso de uma família francesa que estava de férias na Itália e sofreu um acidente de automóvel. Pai e mãe morreram, sobreviveu o filho de cinco anos, mas ficou em um coma muito profundo, onde os médicos davam como certo que estaria desconectado do mundo. Anos depois ele acordou, e falando em italiano, idioma que até então ele desconhecia. Aprendeu ouvindo as enfermeiras, quando ninguém pensava que ele podia ouvir.
“Mas Sally, não tem nenhuma promessa nessa sua história”. Eu sei, Animal. O ponto é provar que não sabemos ao certo o que o cérebro pode fazer e o que não pode. Quem me garante que eu não tenho conseqüências cerebrais positivas com uma promessa, que me ajudem de alguma forma a alcançar meu objetivo?
E ainda que não tenha conseqüências práticas imediatas, se a promessa conforta, te faz batalhar com mais vontade pelo que você quer, te faz sentir menos acomodado ou traz qualquer tipo de incentivo, ela adianta sim! A promessa faz com que você assuma um grau de comprometimento com aquela
“causa” que muitas vezes faz cair a ficha do quanto aquilo é importante para você. É uma celebração, é um rito de passagem:
“daqui pra frente, meu objetivo de vida é este e vou me entregar a isso”. Seres humanos gostam de rituais de passagem. A promessa pode ser um marco, uma ajuda para estabelecer novas diretrizes para a vida.
Os benefícios diretos e indiretos da promessa podem ser os mais variados, dependendo das necessidades e personalidade de quem promete. Pode acontecer da promessa não adiantar porranehumadenada? Pode. Mas isso não nos autoriza a dizer que promessas não adiantam porranenhumadenada. Só porque uma coisa não dá certo 100% das vezes não quer dizer que ela não dê certo nunca.
Pensemos em uma pessoa que promete abdicar de algo que ela gosta muito até alcançar um objetivo determinado. Vamos admitir o ceticismo raivoso de Madame e trabalhar com a hipótese de não existir Deus nem nada paranormal neste mundo. Ainda assim, a promessa vai ser proveitosa, porque o período de privação pode fazer com que a pessoa corra com mais vontade atrás do seu objetivo. Tem gente que precisa desses incentivos.
Além disso, é simpático pra caramba a idéia de pensar que tem alguém te ouvindo quando você está no perrengue e de ter alguém mensurando o quanto você quer aquele objetivo. Mesmo que esse alguém não exista, se a idéia conforta, não vejo porque tirar esse conforto da pessoa. Essa coisa radical de querer ser sempre muito racional soa a quem tem medo de dar um passinho pro lado de lá e não voltar nunca mais, por isso se obriga de forma inegociável a viver exclusivamente no mundo da racionalidade. Eu transito por ambos os mundos sem medo, vou de um ao outro, enquanto me são úteis. Sei que vou e volto, e tento tirar o melhor de cada mundo. E não acho isso fraqueza, acho uma puta esperteza.
Sem contar aquelas promessas lindas onde a pessoa se propõe não a um sacrifício pessoal e sim a ajudar. Doações de qualquer natureza ou qualquer outra modalidade de boa ação. Vai dizer que isso não adianta? Foi mal, acho que quando fazemos coisas boas, em algum momento elas voltam para a gente, de alguma forma que eu não sei explicar. E as ruins também, by the way. Então, de um jeito ou de outro, ela funciona. Muitas vezes mais do que a gente imagina.
Uma promessa funciona de diversas formas, tem diversos benefícios. Por exemplo, para que a pessoa esteja mais segura:
“Vou passar na prova PORQUE prometi que daria dez pulinhos por cima de uma joaninha manca! Eu sei que vou passar, porque dei os dez pulinhos!”. O psicológico afeta, Minha Gente. Não duvidem disso. Foda-se se é você se sugestionando, se passar na porra da prova ta bacana. Enfia tanta racionalidade no roscofó! O importante é o resultado final.
Na minha opinião, uma promessa pode funcionar sim. Não acho que seja uma barganha com Deus em troca do impossível. Promessas funcionam, mesmo tirando a coisa da esfera do divino, porque trazem conforto e esperança a quem promete. Parece pouco, mas não é.
Para me perguntar porque eu prometi ficar um ano sem comer chocolate, para me parabenizar por ter conseguido ficar um ano sem comer chocolate e para me contar que você também fez promessas assim eu não me sinto tão imbecilóide por estar me expondo aqui: sally@desfavor.comMarcadores: ele disse ela disse
Fazer promessa para que algo dê certo (ou errado) é o mesmo que dar graças a deus quando algo bom (ou ruim) acontece.
"Parabéns, você ganhou o jogo de tênis contra o jogador mais foda do país!"
"Graças a deus"
Ok, então o cara treina e treina pra quando ganhar, dar graças a deus? Mesmo que deus existisse e mesmo que deus se importasse com o que acontece aqui embaixo, acho que ele teria coisas mais importantes para intervir do que em um mísero jogo de tênis.
Letícia, eu ouvi isso da boca de um neurologista conceituado. Agora fiquei até preocupada, porque ele é o neurologista da minha família. Vou procurar saber se isso é mesmo mentira, porque se for, o sujeito é meio Zé Ruela...
Essa coisa dos 10% é um mito mesmo. O cérebro é usado com um todo.
Imagino que isso tenha se espalhado para explicar para as pessoas que tem muito mais o que elas podem fazer com seus cérebros. E isso é verdade.
Inclusive conseguir os mesmos efeitos do "placebo promessa" sem o risco de perder essa confiança quando as probabilidades jogam contra.
Sally, eu concordo com você que o importante é o resultado final. Agora, pense comigo:
Entre depender da sorte para conseguir uma coisa e conquistar essa coisa de forma permanente... Qual é o melhor resultado?
Não consigo pensar em mais nada a não ser: O MÉDICO DA MINHA FAMÍLIA É UM ZÉ RUELA!!! PQP!