Desfavor do dia 6.7.09 : Ele disse, ela disse: Antes só do que acompanhado?




Não, hoje ninguém vai dar força para você que está encalhado(a), a questão é mais genérica. O ser humano é um ser social, evoluímos como espécie trabalhando em equipe. Mas alguns seres do nosso grupo insistem em se afastar de um convívio social amplo em detrimento de uma vida mais solitária. São os chamados anti-sociais.

Sally (popular) e Somir (anti-social), obviamente discordam sobre as vantagens de ser assim.

Tema de hoje: Vale a pena ser anti-social?

Somir

Vale. Agora saiam do meu gramado, crianças malditas!!!

Falo por experiência própria. Conheço boa parte dos problemas que não ser muito afeito a relacionamentos com outras pessoas traz, mas mesmo assim enxergo o mérito e a graça de ser anti-social por opção.

Em primeiro lugar, quero dizer que sociabilidade não é uma coisa que muda nesses dias de internet. Quem não tem muitos relacionamentos offline costuma compensar tendo vários “amigos” virtuais. De uma certa forma, até mesmo aquele nerd que tem medo de olhar nos olhos de pessoas de carne e osso acaba compensando sua necessidade de ser reconhecido como pessoa por seus semelhantes em outros meios onde se sente mais seguro.

Nem todo nerd é anti-social. Aliás, a maioria deles está sedenta por um pouco de atenção e contato com outras pessoas. Ou você achava que aquele Cavaleiro Maligno de nível 200 dele era só para jogar melhor? Isso é pedido de atenção e aprovação.

O anti-social verdadeiro pode até passar despercebido aos olhos de pessoas próximas. Existe um estigma de que esse tipo de recluso seja mau-humorado e incapaz de cativar as pessoas ao seu redor. O anti-social deveria ser alguém tão escroto que ninguém quer chegar perto dele. Mas aí tem mais mito do que verdade. Existe um abismo entre ser evitado e evitar.

Uma pessoa que não tem capacidade de atrair e manter relacionamentos com outras pessoas não chega a ter muita escolha, não? Quem garante que ela não sonha com o dia que vai ser aceita? Estar anti-social não é ser anti-social.

Estou me dedicando tanto a separar os conceitos pois a maior parte dos problemas que atribuem a um estilo de vida mais solitário são resultantes de pessoas que querem ser mais sociáveis, mas que por vários motivos não conseguem. É nossa mentalidade “umbigocêntrica” que julga as coisas assim. Uma pessoa que não se importa muito com a parte social da vida está de alguma forma TE rejeitando. “Como assim é anti-social? Tem tanta gente interessante como EU no mundo. Só pode ser um cretino mesmo...”

Sinto te informar: Você não é tão interessante assim. Ninguém é. Pode ser para um determinado grupo de pessoas, mas não existe ninguém nesse mundo que valha por si só a sociabilidade.

Pessoas anti-sociais resolvem dedicar parte (ou em alguns casos que até eu acho exagerado, a totalidade) da vida normalmente dedicadas à interação com seus semelhantes para outras coisas. Quase toda nossa vida está programada para que formemos laços com as pessoas à nossa volta e funcionemos como membros produtivos da sociedade. Mas é justamente aí, na produtividade, que as coisas começam a se voltar para a importância do anti-social no mundo.

Convenhamos, a habilidade de se relacionar com o máximo de pessoas possível só evolui a habilidade de... se relacionar com máximo de pessoas possível.

Já parou para pensar quanta inutilidade falamos a cada dia? Vocês acham mesmo que alguém que só mantém conversas fúteis com outras pessoas todos os dias tem algum propósito nessa vida além de fazer número e trabalhar pelo menos 8 horas por dia?

As pessoas que abriram mão de boa parte disso foram as pessoas que encontraram novas possibilidades. A mente humana é uma ferramenta incrível, desde que usada. Aposto que quem tem um milhão de amigos e contatos deva ser muito feliz sim. Mas aposto também que não sobra muito tempo para encontrar prazer em outras atividades. Quem se dedica demais a alguma coisa não pode dar tanta atenção para outras. Óbvio, não?

Existe um limite de utilidade no que você ganha interagindo com outras pessoas apenas pelo prazer da interação. Eu conheço poucas pessoas que sabem ouvir, e não me incluo nelas. Faz muita diferença saber a opinião de 50 pessoas parecidas sobre um mesmo assunto? Você entra em contato com muita gente tão diversa assim todos os dias?

Chega uma hora que a interação te joga num círculo vicioso, onde a necessidade de SER ouvido suplanta qualquer vantagem oriunda da experiência adquirida. Vivemos numa sociedade de monólogos. “Por favor, alguém preste atenção em mim!!! Eu finjo que presto atenção em você se você fingir que presta atenção em mim... Pode ser?”

O anti-social presta atenção no que bem entender e escolhe suas interações baseadas em mérito. O anti-social dedica boa parte do esforço necessário para ser popular em coisas que ELE MESMO julga interessantes e/ou úteis.

Quer vantagem maior do que ser livre?

Sou contra o mito de que o anti-social é antipático. Isso é coisa de quem se sente ofendido(a) por não ser interessante o suficiente. Mas, ei... Continuem conversando sobre o tempo ou a novela por aí. Alguém desesperado por atenção vai acabar fingindo que se importa.

São os anti-sociais que mudam o mundo por prestar atenção no mundo. Os anti-sociais que criam as relações mais sinceras por se interessarem sinceramente. E para completar, o anti-social é justamente a pessoa que aceita numa boa que não gostem dela.

Ser anti-social é divertido. Os únicos que sofrem com isso são aqueles que não escolheram ser anti-sociais. Pessoas das quais eu aposto que a Sally vai falar em seu texto.

Para não me mandar um e-mail: somir@desfavor.com



Sally

Vale a pena ser anti-social? Não. Não vale.

Uma pessoa anti-social tem menos oportunidades na vida, como um todo. Conhece menos gente, tem menos experiências, menos trocas, fica empobrecida e trancafiada no seu mundinho rotineiro.

É fato que profissionalmente conta não apenas a competência como os contatos que fazemos. Uma rede de relacionamentos pode abrir muitas portas para sua carreira, pode trazer novas oportunidades das quais você nunca tomaria conhecimento sem uma indicação pessoal. Também podemos buscar ajuda e apoio e desenvolver projetos em parceria quando estamos cercados de contatos. Pessoas acrescentam. Troca de idéias acrescenta.

Na vida pessoal também é prejudicial ser anti-social. É muito bom estar cercado de amigos, conhecidos, colegas e similares. São portas que se abrem, é um diálogo variado que enriquece. A diversidade faz bem, mantém nossa mente aberta. Sem contar que pessoas chamam pessoas, uma rede vasta de amigos gera ainda mais amigos. No meio desses amigos dos amigos sempre pode ter um bom partido, um parceiro bacana, que quem sabe, não se tornará um namorado.

Existem pessoas, como a Madame aqui de cima, que acham que sabem tudo e que o que não sabem, podem aprender na internet. Eu acho isso arrogância. Existem coisas que não se aprendem lendo, existem coisas que só a experiência e contato com outras pessoas podem trazer. Alguém aqui aprendeu a dirigir lendo o manual do carro?

Eu sou uma apaixonada pelo ser humano. Adoro contato com outras pessoas, por mais que sejam muito diferentes e de mim, por mais que sejam tidas como chatas, burras ou medíocres. Eu acho que sempre temos algo de bom para tirar ou aprender com alguém. Conversar com pessoas me fascina. Eu aquele tipo que puxa papo no elevador.

Mesmo os supostamente menos instruídos do que eu já me ensinaram coisas. Existem uma sabedoria popular inegável, no meio de muitas merdas improdutivas, às vezes os burros soltam uma pérola de sabedoria não lapidada. Conviver com as diferenças é um exercício que me torna uma pessoa melhor.

Conversar, se importar com os outros, olhar para os outros, além de ser simpático, ajuda a entender melhor o ser humano. É bom ser querido, é bom ser conhecido. No meu trabalho, eu sei os problemas pelos quais passa a Tia do Cafezinho até o alto escalão. Eu não saberia trabalhar em um lugar onde tivesse uma relação impessoal com os que me cercam.

Tem coisa melhor do que ser querido por muita gente, do que ter muita gente te telefonando para dizer que está com saudades ou te chamando para sair? Eu não saberia viver no isolamento. Mas não se trata apenas da minha opinião, é fato que uma pessoa sociável tem mais chances de sucesso na vida.

Vejo muita gente que tem dificuldades em ceder, em dividir, em conviver e disfarça isso dizendo “Sou anti-social e pronto!”. Nada disso, é gente que já tentou ser sociável e não conseguiu, então, camufla essa deficiência como se fosse uma escolha. Esse teatro de “lobo solitário” não me convence. Ninguém vive bem sem amigos.

Tudo bem que não dá para ser uma pessoa cercada de amigos de verdade por todos os lados, os amigos de verdade são poucos. Mas o fato de uma pessoa não ser amigo de verdade não tem impede de conviver com ele e tirar o que ele tem de melhor. Eu tenho amigas que não são muito confiáveis para algumas coisas mas são ótimas para outras. Por exemplo, para algumas, não dá para contar segredos, mas são ótimas companheiras para quando quero rir, me divertir, me distrair. Tire das pessoas o que elas tem de melhor e quem sai ganhando é você.

Com certeza o caminho mais fácil é se fechar no seu próprio mundinho solitário e se convencer que o resto do mundo é imbecil e não merece a sua atenção. Uma pena, porque fechando as portas para o convívio com outras pessoas quem sai perdendo é o anti-social. Basta ter um pouquinho de humildade para ver que todo mundo tem algo a nos acrescentar e que ser sociável não é demérito. Mas, para aprender com a troca, é preciso ter a cabeça aberta, estar receptivo, estar disponível e ser capaz de olhar além do próprio umbigo. Infelizmente não são todos que conseguem.

Para me dizer que eu vivo tomando facada nas costas por ser tão sociável, para me dizer que as pessoas abusam e montam em pessoas sociáveis e para dizer que gente anti-social tem um glamour de mistério: sally@desfavor.com

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Desfavores dos leitores...
Blogger FêJax fez esse desfavor de comentário:
Olha, eu até gosto de me relacionar, apesar de odiar pessoas em geral... hehehe.

Mas a minha vida melhorou muito (inclusive em termos de tempo) quando parei de ouvir tanto e querer ajudar tanto os amigos. Era muito desgastante, sugava minha energia, meu tempo e minha paciência.

Hoje eu tenho amizades enxutas, sem obrigação de sair toda semana, de ficar horas no msn. Nã-não. É só quando eu quero.

Tá precisando muito de mim? Me manda um email, que eu posso responder enquanto trabalho (fingindo que estou trabalhando... uehueheuhe).

6.7.09  
Anonymous Shadowcat fez esse desfavor de comentário:
Eu não me auto-classifico em nenhuma das duas, exitem momentos da minha vida em que estive cercada de pessoas e outra em que eu me relacionava apenas com algumas. Existem pessoas que gosto de manter comigo[os que considero meus amigos de verdade], e tem aqueles que participam de um momento da minha vida e me oferecem algo bom, algo que posso usar na minha vida e se vão. Não sou sociável[não converso com todo mundo que vejo na minha frente], mas não perco uma oportunidade de conversar com uma pessoa interessante a meu ver. :D

6.7.09  
Anonymous kAa fez esse desfavor de comentário:
sou anti-social de carteirinha....

acho q me sinto mais livre pra fazer as coisas sem ter q aturar gente chata no meu pé...

mas os argumentos da sally até q foram bons ....

6.7.09  
Anonymous Anônima fez esse desfavor de comentário:
Claro que melhor só do que com um encosto malígno do lado, mas tem muita gente boa por aí, é só procurar direito. Se relacionar é uma arte, viver bem é uma arte.

6.7.09  
Blogger Isa-. fez esse desfavor de comentário:
“Como assim é anti-social? Tem tanta gente interessante como EU no mundo. Só pode ser um cretino mesmo...”

HAHA tenho uma prima que morre de raiva de mim por isso. Certa vez ela quis me ofender dizendo "garota estranha, anti-social". Eu a ofendo muito simplesmente por não lembrar que ela existe (confesso que sinto prazer em ver o incomodo de gente medíocre).

"Chega uma hora que a interação te joga num círculo vicioso, onde a necessidade de SER ouvido suplanta qualquer vantagem oriunda da experiência adquirida. Vivemos numa sociedade de monólogos. “Por favor, alguém preste atenção em mim!!! Eu finjo que presto atenção em você se você fingir que presta atenção em mim... Pode ser?”"

Quando pessoas puxam assunto com você nos ônibus (na fila do dentista, no elevador, no trabalho, na faculdade), elas não querem SUA opinião sobre o assunto, elas querem simplesmente que você concorde com a dela. Tapinha nas costas e elevação do ego. Nenhum tópico do orkut faz tanto sucesso do que aqueles que sugerem que você fale de si.

"São os anti-sociais que mudam o mundo por prestar atenção no mundo. Os anti-sociais que criam as relações mais sinceras por se interessarem sinceramente. E para completar, o anti-social é justamente a pessoa que aceita numa boa que não gostem dela."

EXATAMENTE! Não ser "querido" é mais por opção, é só não se esforçar. Pessoas NO GERAL são bem fáceis de se agradar, você só tem que sorrir e dizer "você está certo" (às vezes nem isso, só ouvir já basta).

"Existem pessoas, como a Madame aqui de cima, que acham que sabem tudo e que o que não sabem, podem aprender na internet."

Ué, o google, não? :P


Resumindo: existe sim as desvantagens em ser anti-social, acredito que no trabalho principalmente. Mas a questão é que para algumas pessoas, todo o sacrifício compensa. Ver fulano muito menos competente que você ganhar um cargo de confiança simplesmente pq vai ao churrasco "da galera" é revoltante. Mas não ter que ouvir ladainha de gente chata e repetitiva pra ficar em casa fazendo O QUE SE GOSTA compensa. Como já foi dito anteriormente, é uma escolha cheia de contras, mas compensadora para alguns. Questão de prioridade pessoal.

7.7.09  
Anonymous Deja fez esse desfavor de comentário:
Eu sou anti-social, o que não quer dizer que sou incapaz de me socializar, ou seja, é uma opção preferir por exemplo ficar recluso em minha sala no trabalho, ao socializar com pessoinhas que eu acho medíocres. Mas se eu preciso me relacionar bem para ter alguma vantagem, como em alguns relacionamentos profissionais, isso eu faço bem, afinal, todos os meus empregos foram através de indicações, networking...

8.7.09  
Blogger Anna fez esse desfavor de comentário:
Citando Rainer Maria Rilke...

"Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas - eis o que se deve saber alcançar. Estar sozinho como se estava quando criança, enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que pareciam importantes e grandes porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações. Se depois um dia a gente descobre que suas ocupações são mesquinhas e suas profissões petrificadas, por que não voltar a olhá-los outra vez como uma criança olha para uma coisa estranha, do âmago de seu próprio mundo, dos longes de sua própria solidão que é, por si só, trabalho, dignidade e profissão? Por que querer trocar a sábia não-compreensão de uma criança pela defensiva e pelo desprezo, uma vez que a não-compreensão significa solidão, ao passo que defensiva e desprezo equivalem à participação nas próprias coisas cujo afastamento se deseja?"

10.7.09  
Blogger Anna fez esse desfavor de comentário:
Gostei muito do texto do Somir. Muito bem observada a diferença entre a anti-socialidade por opção e a anti-socialidade por falta de opção. E é verdade que um pouco de silêncio e solidão fazem pensar melhor.

Como em tudo, o ideal (e mais difícil de alcançar) é o equilíbrio... nem social nem anti-social demais. Rilke talvez se aproximasse desse equilíbrio... ele sabia ser um solitário convicto sem entrar na defensiva ou no desprezo, e sabia se relacionar com as pessoas sem perder a identidade, apreciando nelas "a vida sob uma forma estrangeira". Quero ser como ele quando crescer.

10.7.09  
Blogger Anna fez esse desfavor de comentário:
Obs.: "em detrimento de" = "em prejuízo de"

10.7.09  
Me mata de orgulho! Peraí... eu não quis dizer... NÃO! NÃO! NÃÃÃOOO!
Desfavor. Espalhe-o.